Brasil na Crise (Condições Favoráveis e Negativas)

Judas Tadeu Grassi Mendes (*)


Há um provérbio italiano segundo o qual “mal de muitos, consolo é” e que se aplica ao caso brasileiro na atual crise. O que mais as nossas autoridades governamentais têm falado é que o Brasil é o país que por primeiro sairia da crise. E só não saiu antes porque o setor público é a grande pedra no caminho da nossa sociedade. Neste artigo pretendo apresentar algumas condições favoráveis e outras negativas para o nosso país. Entre os fatores que ajudam o Brasil neste momento de crise estão:


  1. a dívida interna: fenômeno que não para de crescer, uma vez que aumenta diariamente, não está indexado ao dólar, o que é bom.
  2. as reservas cambiais elevadas, superiores a US$ 200 bilhões, são um fator altamente positivo porque reduz o risco-Brasil.
  3. os bancos brasileiros com baixa alavancagem, uma vez que para cada R$ 1 disponível o volume de empréstimo é de (apenas) cinco vezes. No caso de Lehman Brother, que quebrou, a relação era de 31 vezes.
  4. o Brasil é um grande exportador de alimentos, setor econômico que relativamente menos deve sofrer com a crise, uma vez que as pessoas podem deixar de comprar uma nova televisão ou um novo carro, mas jamais deixarão de consumir alimentos. O mundo, cada vez mais, vai demandar os produtos do agronegócio brasileiro.
  5. o mercado interno brasileiro está com maior poder aquisitivo, fundamentalmente por causa de três fatores: o controle da inflação, o programa assistencialista do Fome Zero e a facilidade de crédito. Tanto é verdade que o número de consumidores das classes D e E diminuiu e o da classe C aumentou nos últimos três anos e hoje já representa mais da metade da população brasileira. Por causa da crise, as classes D e E devem ter aumentado novamente.


Entre as condições negativas que vão dificultar para o Brasil sair da crise pode-se citar:

  1. descontrole do setor público, uma vez que a gastança cresce exponencialmente. Basta dizer que em apenas quatro itens (juros, pessoal, máquina administrativa e déficit previdenciário) o governo “torra” mais de R$ 1,3 bilhão por dia.
  2. queda brutal nos investimentos produtivos privados. Sem dúvida que este é o fator mais preocupante, pois o crescimento econômico não ocorre sem investimentos em novas máquinas e equipamentos e em expansão da capacidade produtiva das empresas.
  3. a infraestrutura física (transporte e portos) e social (educação, saúde e segurança), por causa dos baixos investimentos públicos, é uma condição negativa que dificulta a saída da crise.


Infelizmente, no caso brasileiro, o governo continua sendo a grande pedra no caminho das empresas e da população porque investe muito pouco. Basta dizer que para cada R$ 25 em gastança, o nosso governo investe apenas R$ 1, ou seja, quase nada. Há muita retórica, mas pouca ação efetiva.


(*)  Ph.D. em Economia e Agribusiness pela Ohio State University (EUA, 1980), foi Professor Titular da UFPR (1974-95), Professor visitante nos EUA, Japão e Alemanha, autor de seis livros de Economia e Agronegócio. É um dos fundadores e atual diretor presidente da Estação Business School.