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A Origem da Inflação Brasileira: A Cegueira dos Erros Históricos
O professor Judas Tadeu Grassi Mendes, Ph.D. em Economia pela Ohio State University (1980) e fundador-diretor presidente da Estação Business School, tem sido um crítico contumaz da política monetária adotada pelo governo brasileiro nos últimos dez anos. Contudo, nos últimos meses, a preocupação com a elevação crescente dos preços tem sido uma constante, com ampla divulgação na mídia. Será que o “monstro”, que estava adormecido, está voltando? Nesta entrevista, o professor Judas tece as considerações sobre a sua visão e suas críticas. Vamos à entrevista ao jornalista Fernando Mendonça.
Revista Gestão Eficaz: Prof. Judas Tadeu, qual foi a grande mudança entre os cinco planos de combate à inflação e o Plano Real?
Prof. Judas Tadeu
Antes da implantação do Plano Real em 2004, o governo brasileiro havia tentado cinco outros planos (Cruzado em 1986 e depois: Plano Bresser, Verão, Collor I e Collor II), todos frustrados. O que eles tinham em comum? três coisas:
- tabelamento (por idéias de alguns “gênios” da economia, e o pior é que eram economistas!) com o objetivo de impedir que os preços subissem, mas depois de algum tempo, a inflação voltava. Se tabelar resolvesse, a Rússia seria uma maravilha, pois adotou o tabelamento desde 1919. Por isso, foi sempre o país das longas filas;
- economia fechada. Havia impostos de importação que chegavam a 200%, ou seja, um produto lá fora cujo preço fosse de US$ 1.00, para entrar aqui, o preço seria de US$ 3.00. Economia por demais fechada impede a competição entre as empresas e, assim, cria condições favoráveis para a elevação dos preços;
- muita emissão de moeda. Como o governo brasileiro sempre foi excessivamente gastador, parte do financiamento dos seus gastos vinham da “fabricação” de reais, que alimentava a inflação.
Contudo, a partir de 1994, o Plano Real mudou radicalmente as “três coisas” anteriores: livre mercado, ou seja, os preços passaram a ser unicamente determinados pelo mercado; abertura da economia brasileira (é só lembrar que de 1995 a 2000, o déficit na balança comercial chegou ao recorde histórico acumulado de US$ 25 bilhões, com a explosão nas importações de máquinas e equipamentos e de bens de consumo finais); e controle nas emissões de moeda (é só lembrar que uma das primeiras medidas do plano Real foi a de proibir o Banco Central de emitir moeda de maneira descontrolada, como era antes.
A grande e positiva mudança foi entender que tabelamento com economia fechada e excessiva emissão de moeda são causadores da inflação. Abrir a economia e deixar que o mercado controle os preços e controlar a emissão de moeda, é o principal aprendizado do Brasil nos últimos treze anos. |
Foi só o Brasil deixar o mercado funcionar livremente, sem interferência do governo (que quase sempre só atrapalha!), e permitir que a famosa “mão invisível” do mercado assumisse o papel de coordenação das ações dos compradores e dos produtores, desde que fosse num ambiente de maior competição (por isso, abriu a economia e possibilitou que a importação fosse maior) para que os preços se comportassem num nível aceitável e não faltasse mais produtos. O resultado nós sabemos: a produção interna aumentou, as exportações e as importações também, houve melhoria na qualidade, os preços foram controlados (a ponto de a inflação foi de apenas 2%, em todo o ano de 1998, a menor da história brasileira). Tudo isso foi possível porque as empresas foram “forçadas” a serem mais competitivas e eficientes.
RGE: Professor, nos Estados Unidos, o consumo é um absurdo, mas a inflação deles é baixa, enquanto no Brasil o consumo é baixo e mesmo assim o governo acredita que ele é o causador da inflação.
Prof. Judas Tadeu
Nunca me esqueço da primeira aula de macroeconomia nos Estados Unidos quando o professor sentenciou (e é algo que o Brasil até hoje não aprendeu): “combate-se inflação não apenas segurando a demanda, mas principalmente dando choque de oferta”. E ele explicou dizendo que dar choque de oferta é criar condições favoráveis, via investimentos públicos (como, aliás, já havia ensinado o grande economista Keynes), para que os empresários invistam maciçamente e assim responde à uma pressão de demanda produzindo muito mais. Como sabemos que “tudo o que abunda deprecia”, produzindo e ofertando mais produtos e serviços, fica difícil aumentar os preços. É esse o caminho que os países desenvolvidos adotaram para combater a inflação. Como são desenvolvidos, a renda é alta (altíssima como nos casos dos EUA e Japão, por exemplo) e, portanto, o consumo é elevado (leia-se a demanda agregada é grande). Mesmo assim, eles não têm inflação porque a produção é muito grande (é só lembrar que os PIBs dos EUA e do Japão são os dois maiores do mundo, US$ 12 trilhões e US$ 4,4 trilhões respectivamente), além de importarem muito (somente os EUA importam US$ 2 trilhões por ano). Esse é o caminho para o país crescer com estabilidade.
Infelizmente, as autoridades governamentais brasileiras têm dificuldades para entender isso. É preciso mudar radicalmente a política econômica adotada no Brasil nos últimos anos. Precisamos de menos impostos, menos juros, mais investimentos públicos e privados, pois assim o país volta a crescer, gerar empregos e assim reduzir os problemas sociais. Temos estabilidade (inflação baixa) sim, mas crescimento ainda muito baixo (nos cinco primeiros anos do governo Lula, o crescimento per capita é de apenas 2,5%), apesar de o governo “vender” a idéia do “espetáculo do crescimento”. É bom lembrar que ao invés do Fome Zero, os pobres preferem um razoável emprego, porque é mais digno.
O equívoco está em acreditar que a inflação no Brasil está ligada apenas à demanda, como normalmente ocorre nos EUA. É bom lembrar que o Brasil é muito diferente dos Estados Unidos, que produzem muito e também importam mais do que o PIB brasileiro. No Brasil, a inflação tem mais a ver com a oferta do que com a demanda. E aí, subir juros é agravar ainda mais a situação. |
RGE: mas professor, agora a inflação está tomando conta dos noticiários. Onde está o histórico equívoco do governo em perceber a origem da inflação no Brasil?
Prof. Judas Tadeu
O equívoco está em acreditar que a inflação (que é o aumento generalizado nos preços) brasileira tem a sua origem na demanda agregada (consumo dos cerca de 190 milhões de brasileiros + gastos excessivos do governo + investimentos privados + exportações), em particular no consumo dos brasileiros. Ora, costumo sempre dizer que, no Brasil, o consumo total no dia 24 de dezembro, cujo volume é máximo, representa menos da metade do pior dia de vendas nos Estados Unidos, em qualquer mês do ano. Se os americanos têm um consumo tão alto, por que eles não tem inflação? É só lembrar que nos EUA, o consumo global é de UD$ 9 trilhões por ano, enquanto no Brasil é menos de 10% desse valor. Por que então o governo brasileiro culpa o consumismo como causador da inflação? Este é o grande equívoco. Na verdade, a origem da inflação brasileira não está na demanda dos brasileiros, mas do lado da oferta de bens e serviços. E isso tem a ver com custos. É só lembrar os 62 tipos de impostos (que consomem 36 % do PIB brasileiro), os juros reais mais elevados do mundo), a burocracia e a infra-estrutura física (estradas e portos, apenas para citar dois exemplos) cara e ineficiente. Tudo isso desestimula a oferta. É só lembrar que o PIB brasileiro é de apenas um pouco mais de US$ 1 trilhão (graças à taxa de câmbio apreciado, porque senão seria muito menor).
Portanto, o que precisamos é o governo parar com esta política errada de juros altos, fazer uma reforma tributária inteligente e, ao invés de só pagar juros, investir maciçamente em infra-estrutura (e não essa mixaria de 0,5% do PIB, como tem sido). Ou seja, criar condições favoráveis para estimular a oferta global (leia-se, voltar a crescer a taxas de 8% como já ocorreu durante duas décadas: 1961 a 1980).
sempre a mesma pergunta: será que é o mundo que tem juros baixos, cresce e não tem inflação que está errado? É só lembrar que o mundo vem crescendo muito e o Brasil patinando (em 2006, ficou à frente apenas do Haiti, que tem sérios conflitos internos, por isso precisa até da intervenção militar do Brasil). Na concepção do governo, a política de juros altos é a melhor opção para combater a inflação. Isso é grave equívoco. Pense nisso! |
RGE: Prof. Judas, mas neste momento, os repiques de preços não têm a ver também com a demanda?
Prof. Judas Tadeu
Costumo dizer que o Brasil só teve um período de inflação de demanda, foi no Plano Cruzado. Os brasileiros, além do aumento de salários, passaram a consumir mais, ao sacar suas poupanças que passaram a render pouco. Fora desse período, o principal responsável pela inflação brasileira tem sido o lado da oferta (juros altos, muitos impostos, pouco investimento em ciência e tecnologia, burocracia e infra-estrutura cara e ineficiente). O que eu insisto é que historicamente, a nossa inflação é mais de oferta do que de demanda.
Mas, o que vemos nos últimos meses é um pouco diferente, ou seja, os responsáveis pela inflação no Brasil tem componentes tanto do lado da demanda como no da oferta, mas mesmo assim eu arriscaria a dizer que mais da metade do aumento de preços atualmente tem a ver com a oferta.
O aumento da demanda no Brasil e parcialmente causador da inflação tem a ver com a facilidade de crédito, cuja expansão é mais de 30% nos últimos doze meses. É o crédito facilitado que tem impulsionado as vendas das empresas. Aumento de renda praticamente não tem havido e apenas o emprego tem aumentado um pouco. Em outras palavras, desde 1986, pela primeira vez, uma parcela da inflação brasileira tem a ver com a demanda, sendo esta estimulada pelo crédito facilitado.
RGE: Professor, o Brasil está importando inflação? Ela é de origem externa?
Prof. Judas Tadeu
Há basicamente quatro fatores responsáveis pelo aumento dos preços no mundo. O primeiro deles é a produção de etanol de milho nos Estados Unidos. Apesar de os EUA produzirem em torno de 300 milhões de t de milho, eles utilizam quase duas safras brasileiras de milho para produzir etanol, que é caro e desvia a produção de milho que iria para as rações. Assim, o custo de produção dos alimentos aumenta.
O segundo fator é a demanda crescente de países como a China e Índia, estimulada pelo crescimento elevado e pela mudança do padrão alimentar. Esse consumismo provoca aumento de preços no mundo.
A alta do preço do petróleo é o terceiro componente, uma vez que aumenta os custos de produção e de transporte da maioria dos bens e serviços.
Por último, a especulação financeira é outro fator. A crise imobiliária norte-americana, a desvalorização do dólar e a queda de juros nos EUA, fazem com que as commodities sejam alvo dos especuladores financeiros.
Esses quatro fatores em conjunto foram responsáveis pelo aumento de 400% nos preços do petróelo, de mais de 300% nos de minério de ferro, de quase 300% nos preços do cobre, de 200% nos de níquel e de mais de 100% nos preços de arroz, trigo e milho.
Assim, pode-se dizer que uma parte da inflação no Brasil tem a ver com os aumentos de preços lá fora.
O crescimento mundial (leia-se China e Índia) e a incorporação de milhões de pessoas ao mercado de consumo tem elevado os preços das commodities minerais e agrícolas, ameaçando a inflação. |
RGE: Prof. Judas, a imprensa tem jogado a culpa nos alimentos. O que o senhor tem a dizer?
Prof. Judas Tadeu
Uma das principais âncoras do Plano Real foi a agricultura, que segurou o aumento de preços dos alimentos bem abaixo da inflação. Para se ter uma idéia, o IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo, subiu 230% de julho de 1994 a junho de 2008. Neste mesmo período, os preços de alimentos e bebidas subiram apenas 153%, ou seja, bem abaixo da inflação oficial (IPCA) do Governo Federal para medir as metas inflacionárias.
Os itens que mais subiram foram os ligados à Comunicação (660%) e os da Habitação (440%), por causa dos aluguéis (504%). Portanto, não se pode colocar a culpa na agricultura. Os preços agrícolas, mais recentemente, estão apenas recuperando as perdas ocorridas nos últimos anos. Tanto é verdade, que, de 2005 a 2007, a receita agrícola caiu, apesar do aumento na produção.
Os produtos agrícolas importantes que mais subiram de preços foram arroz, feijão e trigo, cuja produção tem se estabilizado ou até levemente caído. Como a demanda, principalmente da população de renda mais baixa, com a ajuda do Fome Zero, tem crescido um pouco, essa combinação de demanda maior com oferta menor, provocam, como conseqüência, aumentos de preços.
Mas poucos analistas falam que o governo é um dos principais causadores da inflação, por meio dos aumentos abusivos nas tarifas públicas. Por exemplo, no período acima analisado, o transporte público teve um aumento de 461% e a energia elétrica 380%. Isto significa dizer que os preços dos alimentos aumentaram menos da metade da elevação dos preços de serviços públicos.
Enfim, basta estimular a agricultura brasileira a produzir mais, e a situação fica resolvida.
RGE: Prof. Judas, o Pró-Álcool pode ser considerado um programa inflacionário?
Prof. Judas Tadeu
Muito pelo contrário. O álcool é mais barato do que a gasolina. O Brasil é o único país do mundo em que um hectare a mais de cana-de-açúcar não significa um hectare a menos de alimentos. O Brasil pode plantar mais cana e também aumentar a área de grãos. Se o Brasil utilizar apenas 20% da área de pastagem (em torno de 200 milhões de há), já poderíamos fazer um Pró-Álcool para o mundo, sem reduzir em nada a produção de alimentos. Nosso país é privilegiado, nesta questão. O mundo nos inveja.




